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“O homem não cria apenas porque gosta, e sim porque precisa. Ele só pode crescer enquanto humano, coerentemente, ordenando, dando forma, criando”.

(Fayga Ostrover)

 

A arte é uma das mais antigas formas de manifestação do ser humano. Nos primórdios da cultura o homem registrou nas cavernas cenas do seu cotidiano, seus símbolos, seus deuses e demônios e estas manifestações nos comunicam hoje, trinta e cinco mil anos depois, a sua maneira de ver e estar no mundo. Entretanto, a Arte terapia  instituída como tratamento terapêutico, somente surgiu na Europa e nos Estados Unidos, após a II Guerra Mundial devido ao grande contingente de pacientes com traumatismos de ordens diversas, físicos e psíquicos, que não respondiam às formas convencionais de tratamento.

No Brasil, teve como precursora a Drª Nise da Silveira, médica psiquiatra, que em 1947 iniciou um trabalho pioneiro no Hospital Psiquiátrico Pedro II do Rio de Janeiro, inserindo na sessão de terapia ocupacional, a pintura, a modelagem e a xilogravura, chamando esta experiência de “Emoção de Lidar”. Comprovou que o paciente psiquiátrico era capaz de criar mandalas, símbolos arquetípicos, revelando desta forma o seu mundo psíquico e produzindo melhoras no seu estado geral. Através de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu no Brasil a Psicologia Analítica de C.G.Jung, base teórica da Arte terapia em questão.

Em torno de 1970, foi ministrado por um norte-americano o primeiro curso de Arte terapia na PUC. O primeiro curso de pós-graduação em Arte terapia no Rio de Janeiro ocorreu em 1996. Em outubro de 1999, foi criada a Associação de Arte terapia no Rio de Janeiro e em 2006, a União Brasileira de Arte terapia. Estudos com vistas à regulamentação da profissão de Arte terapia encontram-se em andamento.

A Arte terapia é um processo terapêutico que se utiliza de materiais plásticos e sensoriais com o objetivo de facilitar a emergência de conteúdos inconscientes pessoais e coletivos, sua decodificação e sua integração ou transformação, com o objetivo de promover saúde psíquica e, por consequência, melhoria na qualidade de vida do ser humano e do nosso planeta.

 

A Arte terapia é uma profissão assistencial ao ser humano. Ela oferece oportunidades de exploração de problemas e de potencialidades pessoais por meio da expressão verbal e não verbal e do desenvolvimento de recursos físicos, cognitivos, e emocionais, bem como a aprendizagem de habilidades, por meio de experiências terapêuticas por meio de linguagens variadas. (AATA, American Art Teraphy Association).

 

Não é necessário que o indivíduo tenha habilidades distintas para se beneficiar desta forma de terapia, pois em Arte terapia a Arte é entendida como um processo expressivo desprendido de condicionamentos e preconceitos, não limitando o trabalho apenas a resultados estéticos, formais e nem a padrões culturais ou morais. Mesmo o que se considera estranho, feio ou desproporcional é acolhido no processo. A meta principal “não é a formação de artistas plásticos, mas entender com quantas “artes” se constituirão um indivíduo íntegro e saudável. “ (Philippini, 1997, p.05).

Através do desenho, da pintura, da modelagem, do recorte e colagem, da gravura, da construção, da encenação, da criação de personagens, do tabuleiro de areia, da escrita criativa, da tecelagem, da música, da dança, da contação de histórias, o indivíduo tem a possibilidade de criar, produzir e lançar um olhar sobre sua produção, possibilitando que os conflitos expressos simbolicamente, possam ser compreendidos e transformados pela consciência.

Na medida em que o paciente vai se familiarizando com os materiais, suas produções tornaram-se mais estruturadas e ricas em formas e cores. Muitas vezes uma imagem desdobra-se em outras. Por exemplo, um desenho pode ser representado de forma tridimensional através da modelagem de argila. Isto possibilita uma visão mais ampla deste conteúdo e aumenta a possibilidade de que a energia psíquica se projete.

O campo de atuação da Arte terapia é muito amplo. Das crianças aos idosos, praticamente todos podem se beneficiar deste tipo de tratamento tanto em clínica, quanto em escolas e empresas. Exceções se fazem para àquelas pessoas extremamente verbais, a pacientes com distúrbio psiquiátrico grave ou com deficiência mental muito profunda, porque o processo terapêutico demanda que o indivíduo seja capaz de decodificar os símbolos plasmados através de sua arte.

Como vimos, numa sessão em Arte terapia, usamos recursos outros que não a palavra. Por este motivo, vale ressaltar que o processo arte terapêutico rompe com o domínio de uma sociedade eminentemente racional e permite que as pessoas se expressem por outras formas que não seriam possíveis pela linguagem tradicional, de forma livre, desconstruindo mundos e muros em busca de uma melhor qualidade de vida e, por consequência, de uma sociedade mais igualitária e saudável.

 

REFERÊNCIAS:

JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.

OSTROWER, F. Criatividade e Processos de Criação. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

PHILIPPINI, A. Cartografias da Coragem- Rotas em Arte terapia. Rio de Janeiro: Pomar, 2000.

SILVEIRA, N. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ática: 1992.

 

Victorio, Márcia. Psicóloga (CRP 05/8515), arte terapeuta (AARJ 07), membro do Conselho de Honra da UBAAT.

 

Fonte: http://www.webearte.net/artigos_arteterapia.htm

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