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21

Qual foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça ao ler a expressão que intitula esse texto?

Lembrou daquela roupa que insiste em não fechar e mesmo assim permanece encarcerada no guarda-roupa? Ou foi da louça desparelhada do enxoval da sua avó que te faz lembrar da infância?  Quem sabe das tranqueiras que enchem as gavetas dos móveis e as prateleiras dos armários com lembranças e recordações de coisas, gente e momentos que não jogamos fora porque, ora, pertencem à nossa história?

Seja porque ainda conservamos a esperança de um dia servirem, seja porque fazem parte do acervo de nossas boas memórias, seja porque temos dó de nos desfazermos porque custou caro ou foi adquirido naquela viagem dos sonhos ou ainda porque pertencem ao universo daquele ditado “quem me deu esse não me dá mais”,   esse apego material nos mantém presos a uma energia estagnada que nos impede de arejar a alma e de refrescar o coração.

Vou contar a vocês um episódio muito particular!

Após o falecimento de meu querido pai, doei quase a totalidade de seus pertences pessoais mas mantive, bem guardado, o terno que ele usara por ocasião do casamento de meu irmão.

Por meses, saber que bastava abrir a porta do guarda-roupa para acariciar o tecido macio e cheirar o colarinho da camisa alva, chegando a sentir o perfume característico do homem que me criou com carinho, amor e devoção, era perfeito para aliviar um pouco a dor da perda, bem como para mascarar a triste realidade de que meu pai não voltaria nunca mais.

Um dia me enchi de coragem e doei o terno. Entreguei-o para alguém que precisava dele mais do que eu, porque àquela altura eu já havia aceitado sua ausência numa conformação serena que se apoiava em nossas doces lembranças.

Enfim eu me desapegara da convicção de que aqueles pedaços de pano me deixavam mais próxima da memória de meu pai. Não! Aquilo era apenas roupa usada, nada mais.

Nenhum bem material, caro ou barato, chique ou brega, requintado ou rústico detém o poder de trazer de volta um sentimento, uma lembrança ou um carinho.

Nada que o homem possa confeccionar, produzir ou comprar é capaz de nos fazer reviver, voltar no tempo ou  mudar, seja para o bem ou para o não tão bem.

Não era o terno que me mantinha conectada com meu pai. O terno se foi. Nem deve existir mais e mesmo assim, não passa um dia sequer sem que eu me lembre da expressão sorridente com a qual ele me recebia na porta, de sua voz grave, com o sotaque gaúcho a me dizer “Deus te abençoe, minha filha! ” quando nos despedíamos e de tudo o mais que ele fazia ou dizia para me sentir amada e me permitir amar sem restrições.

O fim do ano é uma boa oportunidade para se promover uma boa faxina no espírito!

Separar tudo aquilo que  mantemos apenas por apego, que teimamos em querer junto apesar de todas as evidências deporem contra, que insistimos em não nos  desgrudarmos, que sabemos que já passou da hora de ver longe. Então, aproveitemos o momento para doar,  quebra, jogar no lixo, vender ou mesmo elaborar um belo embrulho de presente e passar adiante.

Desapegar dói um pouco num primeiro momento, mas será de grande libertação nos seguintes, nos posteriores e para o resto da vida.

Coisas e pessoas que nos são caras devem ser guardadas dentro do peito.

E dentro do peito não existem caixas, gavetas ou prateleiras.

Ali, o que pode ser armazenado são os mais puros sentimentos e as melhores emoções.

Ame mais, curta mais!

Guarde menos, desapegue!

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