Você conhece ou já ouviu falar no Museu de Imagens do Inconsciente?

Localizado no Complexo do Centro Psiquiátrico Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, o museu foi criado nos anos cinquenta pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que precisou travar uma batalha contra os métodos tradicionais de tratamento aplicados nos doentes mentais, rebelando-se sobretudo contra os choques elétricos utilizados como forma de “ajustar a conduta” dos internos e implantando, às custas de muita luta e sofrimento pessoal, o uso da arte como terapia.

Se hoje Nise da Silveira anda “em alta” com a veiculação de um longa-metragem sobre sua pessoa e se o Engenho de Dentro é conhecido pelo estádio do “Engenhão”, onde o corredor jamaicano Usain Bolt brilhou aumentando sua coleção de medalhas de ouro na última olimpíada, nem sempre foi assim.

Houve um tempo, recente por sinal, em que em essa nordestina miúda era chamada de “maluca” por insistir na mudança do consolidado protocolo de tratamento dos “loucos” que viviam no então “hospício do Engenho de Dentro”, um depósito de gente isolada do mundo, submetida a todo tipo de crueldade num cenário de circo de horrores.

Mas as coisas iam bem daquele jeito, pensavam seus administradores, e era melhor que tudo permanecesse como estava. Mudar por quê? Mudar para quê?

Só que Dra. Nise não se fez de rogada! Insistiu na ideia de estimular os doentes, em sua maioria esquizofrênicos, a colocar para fora as emoções, exprimindo-as através das mais diversas variações da arte que levasse o paciente a se conectar com o seu “eu” criativo.

“A arte-terapia ajuda o sujeito a olhar para dentro de si, levando-o ao autoconhecimento e é destinada para todas as pessoas, sem distinção de idade, pois criar é preciso”, diz a psicóloga Marly Tocantins.

Sim, criar é preciso!

A criação é uma catarse! É a purificação da alma! É a libertação de espírito!

É uma das maneiras mais legítimas de zelar pela saúde mental, de expurgar fantasmas, de aliviar a dor, de lidar com conflitos íntimos, de desvestir máscaras, de quebrar barreiras, de aliviar as amarguras dos traumas reprimidos e dos sentimentos omitidos.

Dra. Nise tinha certeza disso e na década de 50, frente a um sistema de saúde brasileiro conservador, lutou pela sua crença.

Se hoje a Associação Brasileira de Arteterapia considera a arte-terapia “um modo de trabalhar utilizando a linguagem artística como base da comunicação cliente-profissional… e a elaboração artística em prol da saúde. ”, muito se deve a essa médica convicta de que a humanização dos procedimentos, das atitudes, do convívio e da relação entre os seres pode ser uma das respostas para a cura dos males da sociedade.

Um dos fatores que classifica a manifestação artística em arte-terapia é o fato de que nela é o artista quem faz a interpretação de suas criações e cabe ao terapeuta provocar a investigação mais profunda daquilo que foi externado, estimulando a conexão com o inconsciente criativo.

Na arte-terapia não há preocupação crítica na estética.

É a arte na sua forma mais despudorada de limites.

Uma visita a este museu é altamente recomendável, e eu ousaria dizer até mesmo indispensável, para quem cursa e pretende trabalhar na área da saúde mental.

E para quem achar a visita um pouco “pesada” demais, há uma opção mais “leve”, digamos assim, de conhecer os pacientes, familiares e funcionários do Instituto Municipal Nise da Silveira. No carnaval eles formam o bloco Loucura Suburbana, cujo desfile começa dentro do Instituto e ganha as ruas do bairro. É uma “ loucura” imperdível!

Na nossa rotina pessoal, dedicar um pouco de tempo à criação que expresse os nossos sentimentos pode nos ajudar na busca do equilíbrio individual, do resgate do que fomos, da descoberta de quem queremos ser, para a tentativa de conter o que não pretendemos ou para deixar extravasar o que temos  reprimidos e que pode ser, quem sabe, a melhor parte de nós.

Por isso eu escrevo,

Por isso eu estou conseguindo “dar minha cara à tapa”.

Por isso você está lendo este texto.

Porque loucos e artistas, todos nós precisamos ser um pouco.

Téia Camargo

Fontes:

http://www.ccms.saude.gov.br/nisedasilveira/index.php

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_terapia

http://www.marlytocantins.com.br/arteterapia1.htm

http://www.alinebarcelos.com.br/arteterapia/

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