Santuário ecológico, Fernando de Noronha, além de apresentar cenários paradisíacos, de oferecer um leque farto de opções de lazer, de ser berçário de inúmeras espécies de aves e animais marinhos e destino certo para os amantes dos esportes náuticos, também tem muita história para contar.

Desde o início da colonização brasileira esse conjunto de vinte e uma ilhas, sendo a maior e única habitada, a de Fernando de Noronha, mesmo nome do arquipélago, foi cobiçada por holandeses e por franceses; tornou-se capitania hereditária; viu-se usada como presídio; virou colônia penal para encarcerar presos políticos; transformou-se em Território Militar Federal durante a segunda guerra mundial, servindo de base de rastreamento aéreo dos americanos nesse período; em seguida, exército, marinha e aeronáutica revezaram-se no seu governo de dois em dois anos, até que em 1988 foi reintegrada ao estado de Pernambuco como distrito estadual.

A partir daí, 70% do arquipélago foi designado como Parque Nacional Marítimo, criado com o objetivo de valorizar a beleza cênica local, proteger os ecossistemas marinhos e terrestres, preservar a fauna, a flora e os demais recursos naturais.

Ufa! Muitas mudanças, alterações, desmatamento, importação de animais e plantas estranhos ao seu ecossistema natural e ainda assim, em 2001, ganhou o título de Patrimônio Mundial Natural, concedido pela Unesco. Merecidíssimo!

Noronha, como é chamada, é banhada por dois mares: o “de dentro”, voltado para o continente brasileiro e o “de fora”, voltado para as costas africanas. Nem sei dizer qual o mais bonito. Mudam de cor e de forma a cada instante, ao sabor das marés.

Se não houvesse nenhum atrativo além do mar, era o caso de se divertir apenas observando a paisagem das inúmeras praias, mas como a ilha hoje vive quase que essencialmente do turismo, há muito para se fazer. Para todos os gostos, bolsos e idades.

Em se tratando de esportes aquáticos, para os surfistas aquilo lá é uma verdadeira festa, para os mergulhadores de apneia, um privilégio estar em contato com tantas espécies e para aqueles que não sabem nadar, os guias turísticos dão um jeitinho de colocar a pessoa numa boia ou amarrar num colete e lá vai o felizardo, máscara de snorkel, pés de pato e cara na água, observar tartarugas, peixinhos e até filhotes de tubarão e quem sabe, arriscar o “batismo” em águas mais profundas.

 

Fome não se passa! Há vários restaurantes oferecendo desde a simples comidinha caseira à mais fina gastronomia, com predominância dos frutos do mar. Só não deixe para jantar muito tarde, porque Noronha se recolhe cedo para começar o dia seguinte logo nas primeiras horas observando golfinhos ou tartarugas.

Para quem não gosta de madrugar, que durma sossegado até tarde na pousada escolhida dentre as quase duzentas existentes, que vão desde a sofisticada sociedade de famosos, até a mais rústica casinha de pescador.

Uma das melhores formas de se ter um apanhado geral do que Noronha tem a oferecer é fazer o “ilhatour” logo na chegada. O tal passeio dura o dia inteiro e, em grupo ou privado, leva o turista a boa parte dos 17km² quadrados da ilha, com ida aos mirantes e visita a todas as praias e atrações, incluindo parada para mergulho e fechando com pôr do sol ao final do dia.

Ah, o pôr do sol de Noronha! Meu Deus! O que é aquilo? Na verdade, a pergunta poderia ser: “O que SÃO aquilo”? Pois como pode ser apreciado de diferentes pontos, o turista que estiver por lá por alguns dias poderá assisti-lo a cada dia de um lugar diferente. Baita programão!

Com temperatura média anual em torno de 26 graus, até chove por lá, sobretudo no final do verão quando as águas de março se estendem até o final de abril, mas são quase 3 mil horas de sol por ano e turista que se preza sempre procura se informar sobre as ciladas do clima antes de viajar. Fique atento!

Cansou? Pare um pouco, respire e vá caminhar, porque o que não falta na ilha são trilhas. Variam desde as mais tranquilinhas, até o grau “hard”, para os experientes e bem preparados fisicamente.

Escolhida uma, calçado, de preferência com tiras, daquele estilo “papete”, que não sai do pé com facilidade, chapéu, boné ou qualquer coisa que proteja bem do sol, muito protetor, repelente contra insetos, garrafa de água na mochila – nunca estive num lugar com tanta gente com mochila nas costas –  e pronto! Só não se deve deixar de reserva-las com antecedência pois o número de vagas é restrito e a procura absurda.

E se depois de escarafunchar canto por canto, o turista achar que já viu tudo, aconselho um passeio de barco para observar o que considerava como “visto” sob outra perspectiva. Garanto que vai se surpreender com as ilhas secundárias, para as quais o acesso somente é permitido com autorização. Pode ser que dê a sorte de o seu barco ser acompanhado por um grupo de animados golfinhos esmerando-se em piruetas.

Em Noronha não há casos de violência, roubos ou assaltos. É espantoso largar a bolsa com roupas, documentos, dinheiro e celular sobre uma mesa comunitária, sair para mergulhar, voltar e encontrar TUDO, até a bolsa. Juro que estava preocupada, mas como guias, funcionários da pousada e todo mundo da ilha me garantiu que eu podia ficar sossegada,  relaxei. Mas só no terceiro dia. Pena que no quinto tive que voltar para casa e deixar por lá essa sensação gostosa. Ah, Noronha, obrigada por ter me permitido vivenciar isso, de estar no Brasil e não ser roubada! Achei que não fosse mais possível.

O acesso à ilha é controlado. Para ingressar nela é preciso que o turista se cadastre e pague a Taxa de Preservação Ambiental, cobrada por dia de permanência de hospedagem. Há casos de isenção, como para os moradores, mas, via de regra, paga-se algo em torno de pouco mais de 60 reais por dia para se ter o direito de usufruir do ecossistema delicado que domina o arquipélago.

O turista que também deverá arcar com a taxa para acesso à área do parque e ingressar em praias badaladas como a Sancho (top das tops, todo ano no pódio da praia mais linda do mundo), entre outras. O ingresso, válido por dez dias de visitação, gira em torno de 100 reais para brasileiros e o dobro para estrangeiros, isentos os menores de doze anos e maiores de 60. Mais dois anos e meio e eu não teria tido esse custo. Paciência! Valeu cada centavo!

Mas nem tudo é mar multicolor ou pôr do sol deslumbrante em Fernando de Noronha. O custo de vida é altíssimo; os produtos e mercadorias só chegam por barco ou avião; a gasolina, que vem do continente, é caríssima e de qualidade ruim, já que no trajeto pode ser contaminada; o sistema de saúde é precário e é bom estar ciente de que o aeroporto não possui sistema de iluminação na pista. Ou seja, avião não pousa por lá durante a noite. Há hospital, mas é recomendável levar alguns remédios além dos de uso frequente e não correr riscos desnecessários.

Fernando de Noronha tem grande preocupação com a sustentabilidade. Voluntários trabalham sem descanso para garantir a preservação de espécies e sensibilizar os visitantes quanto à necessidade de economizar água, energia e produzir o mínimo de lixo possível.

A administração do parque, atualmente, a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade, o ICMBIO, como a população local trata o referido instituto, recolhe mais de 200 toneladas de lixo todos os meses. Quase 8 por dia, gerado por embarcações, trazido pelas marés e, acredite, coletado na ilha, inclusive nas praias sob a gerência do ICMBIO, que mesmo tendo um trabalho hercúleo de conscientização num corpo a corpo direto com os turistas, que vem aumentando em número, ano a ano, muitas vezes se depara com ouvidos moucos para a necessidade de se preservar aquela belezura toda.

A parte boa dessa história é que todo o lixo recolhido é separado na usina de compostagem da ilha que separa o orgânico, aproveitado como adubo, do reciclável. O que não é possível ser tratado, é enviado para o continente, mas é notória a situação complicada do entulho de obra espalhado por toda a ilha.

Construir em Fernando de Noronha é uma tarefa árdua e muito cara e se essa questão de resíduo de obra já é um assunto bastante complicado em todas as regiões do país, lá ela se agrava, pela dificuldade e pelo custo de enviar o material a ser descartado para o continente. Acaba ficando por lá mesmo, jogado em qualquer lugar.

Amei conhecer Fernando de Noronha e voltarei, com certeza!

Só espero, da próxima vez, ter a grata surpresa de saber que o poder público, arrecadador da taxa que deve ser investida na melhoria urbana da ilha, assumiu com garra esta tarefa ao perceber que embora a rodovia seja asfaltada, não é possível que as vias, continuem a ser quase intransitáveis, dificultando o trabalho de todos os que se dedicam ao turismo e onerando o orçamento do viajante.

Noronha é pé na areia! É gentileza e beleza estonteante!

Noronha é simplicidade cativante! É sustentabilidade e diversidade!

Fernando de Noronha para sempre na minha memória e no meu coração!

Téia Camargo

Para maiores informações sobre o funcionamento do arquipélago, consulte os sites:

http://www.noronha.pe.gov.br/

http://parnanoronha.com.br/

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