Uma das minhas escritoras preferidas é Jane Austen, a inglesa de Hampshire que viveu no século XVIII, nunca se casou e ainda assim é considerada a maior romancista da literatura britânica.

Os romances de Jane Austen são avassaladores. É romantismo na mais pura essência. Suas heroinas sofridas têm como redenção o amor vitorioso que supera barreiras e  dificuldades.

Eu adoro Jane Austen! Sou fã do amor romântico! Faço apologia do romantismo e não acredito numa vida sem romance, ainda que de forma idealizada, como os imortalizados pela imaginação fértil da minha querida escritora inglesa.

Movida por essa convicção e por costumar seguir minhas emoções, produzo versinhos bestas, contos água com açúcar, literatura simplória e, como qualquer autor, recebo algumas críticas e um dia desses o comentário redigido por uma leitora, a quem preservo o anonimato, me calou fundo. Após ler meu verso REFÚGIO (reproduzido ao final deste texto), ela escreveu: “romântico demais para os amores de hoje, mas inspirador para os poucos românticos que ainda existem.”

E eu me peguei pensando sobre que tipo de amor estamos vivenciando.

Longe de mim pretender filosofar ou teorizar sobre o amor, mas o comentário da leitora me fez refletir sobre a maneira pela qual expressamos o nosso amor.

Os amores são diversos! Amor companheiro, amor platônico, amor compaixão, amor unilateral, amor materno, fraterno e tantos outros sempre levando as pessoas a se unirem, a formarem lações afetivos importantes, a se completarem e a amarem, simplesmente!

Mas em se tratando do amor em que os componentes do desejo, da sexualidade, da atração, da afeição e do cuidado e trato recíproco estão presentes e é vivido por duas criaturas ocidentais, com o agravante do ardor passional latino no nosso caso, pensar nesse tipo de amor sem uma pitada de romantismo que “alimente” essa ligação emocional e proporcione a manutenção da chama viva, me passa a nítida sensação de se transformar o dia a dia da relação a dois num contrato burocrático de convivência cordial e amigável.

É natural inconcebermos nos dias atuais o amor romântico de Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e outros tantos retratados pelo cinema, teatro ou literatura, assim como também é esperado, de forma salutar,  que não se deposite no romantismo a única esperança de viver relacionamentos verdadeiros ou de se viver de bem com a vida.

Contudo, de forma consciente e sem priorizar a ilusão, o permitir um pouco de romance, é inegável, faz um bem danado à relação.

Muito além dos clássicos por do sol na beira da praia e jantarzinho a dois no aniversário, o exprimir sentimento em pequenas doses homeopáticas no cotidiano, para o outro, para si mesmo ou para o universo, tem efeito inimaginável no quão profundo o prazer de estar vivo é capaz de atingir.

O romantismo pode ser considerado cafona, o romântico pode ser encarado com um “pagador de mico”, o romance pode, como disse a leitora, “ser demais para os amores de hoje”, mas eu continuarei a empunhar a bandeira da expressão romântica e a acreditar que sem ela o amor, seja ele qual for, corre o risco de ser posto à beira de um precipício profundo e tenebroso.

 

REFÚGIO

Se a noite é fria e escura

é o abrigo de seus braços

que aflora minha ternura

que acalenta meu abraço.

 

Se a tarde é úmida e quente

é o frescor do seu sorriso

que ameniza meu martírio

que me eleva ao paraíso.

 

Se o dia é claro e ensolarado

é o bafejo de seu hálito doce

que emana brisa em melodia

que pulsa precoce euforia.

 

Se a manhã é sombria e tardia

é a chama viva do seu olhar

que irradia minha alegria

que enobrece meu caminhar.

 

Se o amanhã é dúvida incerta

é o fervor de sua coragem

que traça o rumo da viagem

que conduz à estrada correta.

 

Téia Camargo – fev/17

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *