Ruth não falava em outra coisa que não fosse detalhar os preparativos do almoço que recepcionaria a jovem candidata à nora.

Qualquer pessoa que por qualquer motivo se dirigisse a ela, não escapava de ver na tela de seu celular a foto da bela e magérrima loira que havia conquistado o coração de seu único filho.

Empenhada em impressionar bem, Ruth tratou de se aconselhar com as amigas da academia, incluindo a minha pessoa, sobre qual comida servir, já que havia sido previamente alertada pelo apaixonado rapaz de que sua namorada era vegetariana.

Diversos palpites depois, foi elaborado um cardápio leve, sofisticado e nutritivo.

Tudo pronto para o grande dia, o casal de pais não escondia a ansiedade e não via a hora de conhecer aquela que haveria de ser a mãe de seus netos.

O almoço foi, de fato, um evento inesquecível, embora longe de  agradável, pelo que nos contava na manhã da segunda-feira seguinte uma exasperada Ruth, o rosto vermelho, a camiseta de malha ensopada de suor, bradando aos quatro cantos a desfeita pela qual ela e o marido haviam passado.

Família e convidada reunidos, na mesa uma fantástica lasanha de beringela fumegando, acompanhada pela bela e colorida  salada de folhas e grãos e na cozinha, aguardando o momento da entrada triunfal, a dourada sobremesa de banana caramela acompanhada pelo sorvete mais caro do mercado.  Nada disso foi suficiente para impedir que a moça puxasse da bolsa uma marmita e ali, em plena sala da família, traçasse uma misteriosa gororoba que havia trazido de casa, sem ao menos ter passado o conteúdo do potinho de vidro para o prato de porcelana fina que a dona da casa havia desenfurnado do armário.

Olhos marejados, a consternação de  Ruth conseguiu chamar a atenção de todos os frequentadores da academia que, discretos, largaram seus aparelhos para ouvir o descalabro.

As amigas mais próximas se entreolhavam horrorizadas, alguns desconhecidos balançavam a cabeça em negativo enquanto outros, aos cochichos, ensaiavam uma defesa a favor da agora ex-nora, até que Ruth explodiu para a rodinha de público que se formara ao seu redor: “Me digam, minha gente! Por que essa menina fez essa grosseria conosco?”

E então, atrás de nós uma voz grave respondeu: “Vai ver ela sofre de ortorexia.”

Um silêncio de espanto tomou conta do ambiente e todas as cabeças se voltaram para o senhor grisalho que tranquilamente secava o suor da testa com uma toalhinha branca.

A partir dali ninguém mais ligou para dar continuidade ao treino.

A pequena turma se acomodou como pode por cima dos colchonetes e equipamentos atenta a ouvir a explanação do endocrinologista sobre a tal da ORTOREXIA, um transtorno alimentar recentemente diagnosticado, que surge quando a pessoa se torna obsessiva quanto aos padrões daquilo que come.

Mario, nosso amigo médico, explicou que ao contrário das conhecidas anorexia ou bulimia, nesta nova modalidade a pessoa come, mas fica tão obcecada com a qualidade, as calorias, os nutrientes e as vitaminas da composição daquilo que vai ingerir que todos os seus pensamentos ficam ocupados o tempo todo com a dieta.

O termo ortorexia, disse, é de origem grega – “orthós” significa correto e “orexsis”, fome – e foi criado pelo médico americano Steven Bratman, autor do livro Health Food Junkies (algo como Viciados em Comida Saudável.)

“A pessoa que desenvolve ortorexia só consegue ingerir alimentos saudáveis e assim mesmo após checar a informação sobre o conteúdo nutricional de cada elemento. Abominam qualquer coisa que não esteja na sua lista particular de “permitido”, lista essa, construída por ela mesma.

A alimentação saudável, uma regra a ser seguida por qualquer pessoa sensata e preocupada com a saúde, na ortorexia alcança patamares de intransigência a ponto de  a dieta da pessoa se tornar tão restritiva que sua vida social passa a ser afetada por esse comportamento.

Em geral o indivíduo que desenvolve ortorexia se ocupa quase todo o tempo com a questão alimentar,  preocupando-se tanto com tudo o que diz respeito ao que vai mastigar ao longo do dia, que deixa de se concentrar em outras atividades e assim vai se distanciando dos amigos, da família,  perdendo  o foco do estudo ou do trabalho e o prazer da diversão, já que não desvia um milímetro sequer de sua posição radical para relaxar e aproveitar a vida de maneira mais leve.

Além da exclusão social, esses exageros também podem causar problemas de saúde, pois ao serem excluídos determinados grupos alimentares da alimentação cotidiana, a deficiência de nutrientes podem comprometer o bom funcionamento do organismo.

A hora foi passando e as pessoas concentradas na explanação começaram a ficar inquietas olhavando preocupadas para seus relógios, até que Ruth, num rompante, expressou o que devia estar passando  pela cabeça de todos os que ali estavam.

– Então, doutor, essa menina só pode ser ortorexa – e foi logo acrescentando – Isso tem cura?

Coração apertado, penalizada pela aflição de minha amiga, ouvi a resposta.

– Veja bem, Da. Ruth, eu não estou dizendo que a namorada do seu filho é ortorexa. Apenas acho, por tudo o que você relatou e que eu não pude deixar de ouvir,  que ela está emitindo alguns sinais compatíveis com esse distúrbio. O que mais me chamou a atenção na sua história foi o fato de ela não estar conseguindo comer o que não é preparado por ela mesmo. Esse é um detalhe importante a ser avaliado. O aconselhável, neste sentido, seria que ela procurasse um médico que, aí sim, com base em exames e  avaliação de seu  histórico de vida, poderá diagnosticar e prescrever o tratamento mais adequado que deverá  ser acompanhado por outros profissionais da saúde e contar com a participação efetiva da paciente para poder levar uma vida normal com a continuidade e eficiência do tratamento.

Os semblantes se animaram e Ruth sorriu, dirigindo-se aos frequentadores da academia: “Gente, vocês estão ouvindo isso? Ela não fez desfeita com a gente, não! Isso pode ser uma doença, coitadinha! Nem tudo está perdido! Nós vamos fazer o possível para ajudá-la!” e esfregava as mãos com ansiedade, acompanhada pelos olhares complacente dos colegas que se despediam.

O espaço foi esvaziando e enfim Ruth ficou sozinha no seu canto, ensaiando uma dancinha de felicidade ao descobrir que talvez seus netos possam ter os mesmos olhos azuis da menina linda que há pouco menos de uma hora ela havia praticamente descartado de sua vida.

Mais do que nos ensinar sobre Ortorexia, o gentil doutor nos deu uma lição de vida ao deixar claro que a moderação talvez seja o melhor caminho para a sensatez.

Pois, como já dizia o filósofo e pensador chinês Confúcio, que morreu antes da era cristã, “Quem se modera, raramente se perde”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *