“O que tem de bom em Chicago?” Foi a pergunta que fiz ao meu marido quando ele me convidou para visitarmos sua prima idosa que mora há mais de quarenta anos naquela cidade.

Sobre Chicago eu só sabia que ventava muito, que o cruel gângster Al Capone comandou o negócio ilegal de bebidas durante a Lei Seca nas décadas de 20 ou 30 e que Eliot Ness, uma espécie de Sérgio Moro da época, montou uma força-tarefa incorruptível, como a nossa lava-jato, e assim colocou o criminoso atrás das grades fazendo uma limpa na sombria e inescrupulosa Chicago do início do século 20.

Minha intuição dizia que Chicago tinha tudo para ser escura, perigosa, suja e bagunçada.

Qual não foi minha surpresa ao chegarmos lá!

Chicago é uma cidade lindíssima! Maravilhosa! E merecedora de mais elogios.

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Super moderna, vibrante, povo amável, transporte público farto e de excelente qualidade, gastronomia de primeira, atrações imperdíveis, arte por toda a parte e uma das escolas de arquitetura mais importantes do mundo, dizem os experts, e sede de importantes universidades americanas.

Você não precisa ser fã de museu ou de galeria de arte para se apaixonar pela cidade.

A beleza e o encanto estão expostos a céu aberto.

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Desde os impactantes arranha-céus maravilhosos, até os gigantescos parques de paisagismo divino, passando pelos mirantes no alto dos prédios de onde se pode enxergar até a linha do horizonte e incluindo, claro, um bom comércio repleto de lojas para os mais diversos bolsos, Chicago é diversão garantida para todos, incluído as crianças.

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Uma pena que seja tão fria no inverno, pois isso a afasta da minha lista de prováveis cidades para morar. Em compensação, para passar uma temporada, ela é um caso muito sério a ser avaliado.

Até porque tem uma cereja nesse bolo.

O lago Michigan e suas praias artificiais, que ficam lotadas no verão, onde são praticados esportes náuticos e onde barcos, a vela ou a motor e de todo tamanho, rasgam as águas verde-esmeralda daquilo que mais parece o mar.

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Chicago no verão é tão quente e úmida quanto o Rio de Janeiro, ou seja, nós nos sentiríamos praticamente em casa.

Amamos Chicago!

Adoramos caminhar sem pressa por suas ruas seguras; comermos a tal da “stuffed pizza”no Giordano`s; traçarmos um bifão delicioso que se corta com o garfo na churrascaria do Michael Jordan; dizermos “hello” à Sue, a Tiranossauro Rex queridinha do povo de lá; passearmos de barco pelos canais e só não fomos ao jogo do Cubs, o time de beisebol local, cujo azul e branco do logotipo enfeita tudo e qualquer coisa na cidade, porque não conseguimos ingresso.

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Chicago nos fez parecer estar hora no Aterro do Flamengo, quando percorríamos as largas pistas da via costeira ao lago e hora em São Paulo, quando estávamos à sombra dos prédios altíssimos e envidraçados do centro da cidade e como se isso tudo não bastasse, ainda recebi como bônus dessa visita inesquecível, conhecer a prima idosa.

A famosa Maria, de Chicago, de quem eu ouvi falar nos últimos dezessete anos, desde que conheci meu marido.

Divertidíssima, super alto astral, batendo perna o tempo todo conosco, tagarelando e incansável, fez questão de nos mostrar diversos pontos turísticos da cidade. E quando eu digo idosa, eu quero me referir a uma senhora de noventa anos.

Maria incorporou o espírito da cidade onde vive há tanto tempo.

Disposta, gentil, elegante e acolhedora.

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Gostei de Chicago tanto ou mais do que gosto de Nova York e que os nova iorquinos não nos ouçam, mas no quesito ruas lotadas de gente, Chicago ganha fácil. Sem contar que você pode entrar desavisado num bar de uma esquina qualquer e esbarrar com o show intimista de um “papa”do jazz, coisa impensável em NY, onde se exige reserva de semanas de antecedência e preço exorbitante para assistir o mesmo espetáculo.

Pois é, Chicago também mantém a agenda de teatros e casas de espetáculos da cidade lotada de shows atraentes e peças badaladas.

De Al Capone e de sua história nefasta, sobrou apenas um passeio turístico bizarro que percorre os lugares onde esse indivíduo sanguinário viveu, mas como nós não curtimos criminosos e não fazemos apologia ao que não presta, é lógico que não perdemos nosso tempo nem desperdiçamos nossos dólares com essa bobagem.

Já Chicago e Maria nos deixaram com uma sensação prazerosa de “quero mais”.

Nós voltaremos!

Pela cidade, pela Maria e por um monte de coisas que não tivemos oportunidade de ver ou de fazer e que estarão lá, a nossa espera.

Até outra hora, Chicago!

Muito obrigada, Maria!

Téia Camargo

Out/16

Alguém sabe dizer como começou, quem inventou ou por qual motivo estamos sempre nos justificando?

Repare bem! Se hoje, até o presente momento, você ainda não se justificou para alguém é bem provável que o faça até o final do dia e caso isso não aconteça, de amanhã não passará. Pode apostar!

Acabei de mandar uma mensagem para o meu personal trainer solicitando a possibilidade de alterar o horário do treino físico desta tarde das 17h para às 18h. Coisa boba. Era só eu requerer a troca, ele me responder sim ou não e o assunto estava resolvido.

Mas não! Eu relatei os motivos pelos quais desejava a mudança e ele elencou suas razões para aceitar minha proposta. Ao final, me perguntei: havia necessidade de tanto blábláblá para uma simples alteração no horário da aula de ginástica?

Óbvio que a cortesia de esclarecermos possíveis transtornos gerados por alterações, rompimentos ou mudanças de planos nos força a esclarecer certos atos e ações, sem contar que nas relações trabalhistas e contratuais o fato de não legitimarmos faltas, atrasos, doenças e outros casos fortuitos e alheios à nossa vontade nos impõe ônus punitivo, por vezes severos, ou até definitivas em relação ao contrato.

Ainda assim, tenho percebido que nos explicarmos o tempo todo para todo mundo vem se tornando uma obrigação comportamental esperada pela sociedade.

Estabeleceu-se a cultura do “é porque isso é porque aquilo” e sem que percebamos muitas de nossas frases começam com essa expressão ou outra parecida.

Se você está pensando em pedir dinheiro emprestado para alguém, não ouse dispensar provas inequívocas da mais absoluta necessidade do montante, ainda que você seja confiável, que possua alta credibilidade e tenha a mais firme intenção de cumprir o cronograma de devolução.

Ninguém dispensa a famigerada justificativa, mesmo que ela seja uma desculpa esfarrapada ou uma mentira deslavada.

Estamos nos acostumando a conviver com a desconfiança, com a exposição de nossos problemas e dificuldades e, não raro, com a humilhação e a falsidade.

A partir de hoje vou experimentar não me justificar com tanta frequência e fazê-lo apenas quando estritamente necessário. Serei sincera nas minhas colocações, austera nos meus pedidos e autêntica nas minhas respostas.

Pode ser que eu esteja errada, mas acredito que se nos justificássemos menos, não haveria tanta hipocrisia e como hipocrisia significa “fingir sentimentos”, quanto menos fingimento, melhor.

Mas, como eu disse, pode ser que eu esteja errada.

Vamos ver!

Depois eu conto para vocês o resultado da experiência.

Téia Camargo

Eles trazem vidas à luz e enfrentam batalhas contra a escuridão da morte.

Eles tratam dos nossos problemas físicos e das nossas dificuldades emocionais.

Eles precisam ser perfeitos, amigos, gentis, didáticos, elegantes e “barateiros”. Devem aceitar o nosso plano de saúde, têm que atender ligações no meio da noite e precisam largar tudo e sair correndo só porque nós, num instante de absoluta insegurança, achamos que se eles não se materializarem na nossa frente em menos de cinco minutos, vamos morrer.

Além de tudo isso, eles precisam se apresentar impecáveis, chiques, elegantes e de preferência estampar alguma capa de revista ou aparecer no famoso programa de televisão da manhã falando sobre qualquer coisa, para que assim tenhamos certeza de que estamos sendo tratados pela pessoa certa.

E se por acaso eles escorregarem um milímetro na elaboração de um diagnóstico, na indicação de um tratamento ou mesmo se atrasarem uns minutos o horário de atendimento da consulta, lá estamos nós falando mal ou descartando seus serviços pois afinal, que raio de médico é esse que erra? Quem esse arrogante pensa que é para nos deixar esperando na antessala do consultório?

Médico não poder errar! Nunca! Nem na avaliação, nem na prescrição, nem no look do final de semana, nem na escolha do trajeto de ida para o hospital, nem em nada.

Nascemos, crescemos, envelhecemos e durante todo esse percurso de nossas vidas, são eles os encarregados de prevenir futuros problemas, descobrir possíveis enfermidades, curar as doenças que nos acometem e até consertar nossas irresponsabilidades e aí, nessas emergências, bem, aí, esquecemos todas as críticas e relevamos qualquer divergência.

É, minha gente! Eu não queria ser médica, não!

Já pensou se enquanto escrevo este texto, superconcentrada, focada no assunto, liga uma mãe desesperada porque o filhinho de cinco dias está passando muito mal?

Já pensou se eu estivesse de malas prontas para passear pelo mundo com meu marido (pois é isso o que mais gosto de fazer, depois de escrever) e quando o táxi apontasse na esquina para me levar para o aeroporto eu recebesse a mensagem desesperada da filha de um paciente avisando que ele está entre a vida e morte, num pronto-socorro a trinta quilômetros?

Já pensou se bem no meio da apresentação de tese de doutorado do meu marido ocorresse o chamado de uma paciente desesperada porque um dos pontos da cirurgia arrebentou e ela imagina que as tripas vão sair pelo buraquinho se eu não for para a casa dela correndo costurar o que rompeu porque ela pegou peso, embora eu a tivesse alertado para que não fizesse isso?

Já pensou se eu tivesse que passar noites e mais noites em claro, trabalhando de forma exaustiva? Se eu tivesse que dar notícia de morte a familiares e amigos dezenas e dezenas de vezes ao longo da carreira? Se eu tentasse salvar alguém e não conseguisse porque não havia nada que eu pudesse fazer, ainda que eu insistisse em tentar, tentar e tentar, sem sucesso?

Já pensou?

Claro que tem muita coisa boa. Coisas complexas, coisas simples, coisas grandiosas e coisas cotidianas. O choro do bebê que chegou saudável sob as lágrimas de emoção da mamãe fresquinha; a felicidade de ver a foto da paciente desfilando sua barriga lisinha após a abdominoplastia; o olhar de alívio do machão marombado que teve o ferrão da abelha retirado das costas ou a singela visitinha do paciente que num desses plantões da madrugada chegou na emergência com duas paradas cardíacas e sobreviveu porque implantou um marca-passo e vem só tomar um cafezinho com o médico que o fez nascer de novo.

É, minha gente! Ser médico tem lá suas recompensas, mas passa longe de uma vida glamorosa que eles parecem vivenciar.

Médico trabalha muito como nós, sofre como nós, chora como nós, cansa-se como nós, tem problemas pessoais como nós e embora seja difícil admitir, é humano como nós.

E como 18 de outubro comemora-se o dia do médico, eu registro aqui minha homenagem a todos eles cumprimentando a Dra. Fabiana Valera, médica a quem eu admiro, respeito, por quem tenho grande apreço e que por todos esses predicados, representa com louvor os colegas profissionais decentes, comprometidos, responsáveis e confiáveis deste país.

Feliz dia do médico, Dra. Fabiana Valera!

Que Deus a conserve essa médica competente, essa pessoa encantadora, essa mulher compreensiva, essa amiga que cuida do paciente enxergando-o muito além dos dados frios do prontuário e que trata a todos nós exatamente como gostaria de ser tratada: como gente.

Téia Camargo

Quinze de outubro é um dia sagrado para mim.
Um dia em que as minhas memórias afetivas me remetem às inúmeras salas de aula onde passei grande parte de minha vida e às flores que meu pai, quando em vida, em sua humilde simplicidade me presenteava cheio de orgulho por ter conseguido formar a filha “em professora”.
Quinze de outubro é o dia do mestre!
E quem se importa mais com isso nesse país em que minha nobre profissão aos poucos foi sendo minada e disseminada? Nesse país em que, como resumiu melhor do que ninguém minha adorada escritora Lya Luft: “prega-se a glamourização da ignorância e a glorificação do inculto”? Nesse país em que os alunos agridem e espancam professores sem o menor receio de punição? Nesse país em que a remuneração paga ao professor nem ao menos consegue garantir-lhe uma vida digna, que dirá permitir-lhe investimento na melhoria de sua qualificação.
Vez ou outra ainda se vê o levantar de alguma bandeira em defesa da classe docente ou uma ou outra voz se eleva propagandeando a suma importância do papel do ensino no fortalecimento da juventude e no crescimento econômico nacional.
Somos um país de dimensões continentais. Somos muitos “brasis” num só. Em nenhum deles a educação é o nosso forte. Em nenhum deles o educador é merecedor de um mínimo de respeito. Somos um país em que aqueles que ainda “teimam” em sonhar com o magistério são motivo de desdém, de achincalhe e de incompreensão.
– Você vai ser o quê? Professor? Tá louco? Não tem coisa melhor para fazer, não?
Professor é uma profissão para poucos! É preciso dedicação; é precisa doação; é preciso amor.
Eu sou professora desde a mais tenra idade.
O magistério meu deu asas para voos bem altos e me permitiu pousos seguros em aterrisagens pantanosas.
Tenho muita honra de ter sido professora, ou melhor, de ser professora, porque um professor pode se afastar da sala de aula, mas a mania de ele querer ensinar, transmitir conhecimento e transformar em aluno qualquer pessoa que dele se aproxima, ah, essa um verdadeiro professor não perde. Nunca!
Ser professor é missão da alma!
Ser professor nasce com a gente e não importa se o destino, a vida, um cargo importante ou um salário atraente nos desvie dessa missão, sempre haverá o 15 de outubro no calendário anual para nos fazer lembrar que podemos ser inúmeras outras coisas, mas somos, antes de tudo, professores, mestres,  educadores, ou o nome que quiserem nos chamar.
Téia Camargo
Tags:Geral

Minha amiga teve câncer de mama!

Ela foi a primeira pessoa a me acolher de braços abertos quando eu cheguei a São Paulo sem conhecer ninguém e sem qualquer membro da minha família por perto.

Loura, bonita, empreendedora, no auge dos seus quarenta e quatro anos, casada com um homem bonitão e muito bem-sucedido, mãe de um casal de adolescentes lindos e educados, era uma daquelas mulheres que pareciam estar sempre representando um comercial de margarina, o que, aliás, não estava muito longe de ser sua realidade.

Juntas dávamos risadas, fazíamos ginástica, discutíamos assuntos polêmicos, íamos às compras, organizávamos uma ou outra festinha ou às vezes apenas caminhávamos juntas no início da manhã. Eu sempre espevitada, falando aos borbotões quase sem respirar e ela plácida, sublime, voz doce e pausada. Eu, baixinha, meio gorducha, cabelos curtos escuros e ela, alta, longilínea, esguia e oito anos mais nova do que eu.

O tempo foi passando, eu me adaptei à vida de casada, à cidade nova, iniciei outra carreira, ela foi se envolvendo cada vez com o trabalho dela, as vidas de nós duas super atribuladas e, como acontece com frequência, aos poucos as tarefas cotidianas foram se encarregando de reduzir nosso tempo de convívio, as conversas rarearam, os cafezinhos começaram a ser adiados e embora o carinho e a amizade permanecessem firmem, já não conseguíamos mais nos falarmos com a constância de antes e só nos víamos quando esbarrávamos na portaria do condomínio.

Ainda lembro como se fosse hoje da manhã de sexta-feira nublada em que encontrei uma senhora quase careca e de rosto encovado saindo o mercadinho da minha rua e do choque que senti quando ela sorriu para mim.

Foi ali mesmo, na calçada movimentada, em meio ao entra e sai de gente carregada de sacolas plásticas que minha amiga resumiu em poucos minutos o drama de ter descoberto o câncer de mama, de ter sido operada às pressas e de estar passando pelo doloroso procedimento da quimioterapia.

Emocionada, entre uma fungada e outra, relatava como a doença provocou sua menopausa precoce, o quanto tudo aquilo havia provocado um efeito devastador em sua autoestima e como ela se arrependia de ter negligenciado os cuidados com a saúde, já que pagava uma fortuna por mês para usufruir de um excelente plano que lhe dava acesso aos melhores especialistas do país.

Minha amiga hoje está muito bem, graças a Deus!

Reduziu o ritmo de trabalho, leva a sério a atividade física, recuperou-se dos efeitos nocivos das drogas do tratamento, seus cabelos cresceram, mas continua a se consultar com uma psicanalista para lidar com as sombras do fantasma da doença, para superar os traumas da convalescência e, sobretudo, para aprender a conviver com aquela mulher madura e sofrida que ela enxerga no espelho do banheiro todas as manhãs quando levanta da cama.

Minha amiga tinha tantas coisas urgentes, importantes e interessantes para se ocupar e tanto com o que se preocupar que foi deixando para lá os exames ginecológicos aos quais nós, mulheres, temos a obrigação religiosa de nos submetermos todos os anos.

Está lá no dicionário para quem quiser ver. Prevenção é o “Ato de se antecipar às consequências de uma ação, no intuito de prevenir seu resultado, corrigindo-o e redirecionando-o por segurança. ”

O outubro rosa é uma campanha de conscientização que tem como objetivo principal alertar as mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama.

Prevenção não combina com negligência.

Assim como o câncer pegou de surpresa minha amiga, ele também pode surpreender qualquer uma de nós que não esteja atenta e vigilante.

Minha amiga teve câncer de mama e se curou, mas outras mulheres não tiveram a mesma sorte.

O rosa do outubro não tem nada de frescura.

Ele é forte, parceiro e amigo.

Cuidem-se e lembrem-se que prevenir ainda é o melhor remédio.

Téia Camargo