Músicos e cancioneiros são mestres em divagar sobre o que lhes aflige e para esses imaginativos artistas é natural que o dia seja branco, como canta o nordestino Geraldo Azevedo ou que desejem uma vida cor-de-rosa, como sonha  o compositor Amado Batista.

Mas isso de misturar os sentidos não é um privilégio restrito ao mundo artístico. Desconhecidos e anônimos também ousam desvairar e associar cores a números, texturas às formas, cheiros  às coisas inanimadas e não raro, lá estamos nós tratando como “fofinha” a foto do bebê, nostálgicos, atribuindo ao aroma saído da cozinha o cheiro de infância ou ainda, no calor da paixão, enaltecendo os lábios de veludo da pessoa amada.

Esse fenômeno neurológico que interliga sensações de naturezas sensoriais distintas, provocando que o estímulo de um sentido cause reações em outro sentido é chamado de Sinestesia.

O termo, além de ser utilizado como figura de linguagem para classificar as metáforas da língua portuguesa, ocasiões em que se substitui um termo por outro através de comparações, também se refere à alteração neurológica que afeta um determinado número de indivíduos capazes de misturar sensações visuais, auditivas, olfativas e táteis.

“Essa condição não é considerada uma doença, e sim uma forma diferente que o cérebro tem de interpretar os sinais. Uma em cada duas mil pessoas tem sinestesia, e essas pessoas podem ver sons, sentir cores ou o paladar das formas. ”, diz a bióloga Paula Loredo em seu artigo sobre o tema para o site Brasil Escola.

A jornalista Marta Zaraska, em tradução de um artigo publicado pela revista “Scientif American, alerta para o fato de que “o quanto a sinestesia está presente para a maioria das pessoas ainda é matéria em debate. ”

Sinestésico é aquele indivíduo que maneja com habilidade as espátulas dos cinco sentidos: visão, tato, olfato, paladar e audição, mesclando-os e promovendo uma particular “salada criativa”, descontruindo a realidade à sua maneira e dando margem a novas interpretações e abordagens para aquilo que tradicionalmente se conhece e se entende como único e absoluto conceito.

Em 1842, o maestro da orquestra de Weimar, Alemanha, pediu aos seus músicos “um pouco mais de azul, por favor” e o compositor russo Nikolay Kosakov tinha a convicção de que o A maiúsculo era cor-de-rosa e o B era azul-escuro melancólico com brilho de aço. Além da associação som/cor, acreditam os pesquisadores que existam mais de 60 variedades de combinações entre os sentidos, podendo esse número chegar a incríveis 150 formatações.

Talvez por isso, visitando a biografia de determinados artistas do XIX, seja possível notar que alguns deles tentaram se passar por sinestésico para ficar mais próximo da excentricidade, para brilhar, para “causar” e assim conquistar fama e prestígio, tamanha a influência a sinestesia demonstrava sobre as artes em geral.

Enquanto as pesquisas evoluem e são aperfeiçoadas no sentido de identificar e de comprovar se uma pessoa é ou não sinestésica, no cotidiano, à exceção das alucinações pelo uso de drogas lícitas e ilícitas, um pouco de sinestesia pode tornar a vida mais colorida, o dia a dia mais suave e macio e as relações humanas e afetivas muito mais saborosas.

Se os escritores são ou não sinestésicos, não sei afirmar, mas que no universo poético a sinestesia tem passaporte carimbado e morada garantida, disso eu não tenho a menor dúvida.

Téia Camargo

 

https://www.significados.com.br/sinestesia/

http://brasilescola.uol.com.br/oscincosentidos/sinestesia.htm

http://mundoestranho.abril.com.br/ciencia/o-que-e-sinestesia/

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