Recentes pesquisas apontam na direção de que muito em breve a pílula que permitirá ao homem comer o quanto quiser, sem o risco de contrair doenças ou engordar, estará disponível nas prateleiras das farmácias.

Sonho de consumo de dez entre dez gulosos ao redor do mundo, tal feito da ciência, ainda que fantástico e alvissareiro, nos leva a refletir sobre como se comportaria a humanidade se a manutenção da saúde e o controle do peso deixasse de ser um empecilho restritivo para o consumo de alimentos.

Poder comer o que quiser, o quanto quiser, a hora que bem entender, bastando, para tanto, boa saúde financeira que permita a aquisição do remedinho e dos itens alimentícios a serem devorados, sem qualquer culpa ou consequência danosa.

Seria, tal descoberta, uma mudança radical nos parâmetros de limites e/ou de excessos, como os entendemos hoje?

O excesso, quantidade que ultrapassa o que é conveniente, o que é aceitável, o que é permitido ou o que é tolerável, encontra no limite o obstáculo a evitar que as compulsões levem a contendas e disputas incompatíveis com as regras básicas mínimas da vida em sociedade.

Seja pela religião, moral, lei, ética ou por questões de “foro íntimo”, expressão pomposa com a qual o mundo jurídico batizou a consciência humana, as fronteiras que delimitam o excesso, aquelas para onde além se costuma dar um “basta! ”, um “chega! ”, podem até insatisfazer ou revoltar um ou outro, mas estão ali, presentes no cotidiano e, embora aconteça de não serem respeitadas, em geral, evita-se ultrapassá-las.

Ainda que existam teorias conflitantes para a questão da fome no mundo e que algumas correntes tendam a acreditar que existe, sim, comida suficiente para todos, estando o problema na distribuição desses alimentos, o fato é que, por mais ricos que sejam os países, por mais abonados que sejam os cidadãos, ainda existe um certo cerceamento na ingestão de alimentos.

O ser humano abusa, e muito, mas, via de regra, “coloca o pé no freio” quando visualiza o resultado do check-up, quando está na eminência de um ataque cardíaco fatal ou quando a vaidade, enfim, suplanta os constantes e indiscretos avisos da balança, esse instrumento abominável, sempre pronto a delatar transgressões alimentares.

Essa pílula, como está sendo propagandeada, poderá significar a eliminação desse freio e até, quem sabe, exceder os limites da problemática nutricional, criando mais uma divisão social, separando-nos em “ os com-pílula” e “os sem-pílula”.

Téia Camargo

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