Através de minha experiência como psicóloga de um grande hospital no Rio de Janeiro pude conviver com outras profissionais com grande experiência no acompanhamento de mulheres que lidam com esse tipo de câncer. Acredito que é muito rico quando se pode falar de maneira apropriada de um assunto, quando ele é diretamente ligado à sua prática.

E assim, entrevistei a psicóloga Márcia Natal Batista Abreu especialista em Psicossomática, que atua no ambulatório da ginecologia do HFB desde 1995, e realiza um trabalho altamente significante com as pacientes…

 

  • Qual a importância do acompanhamento/suporte psicológico durante o tratamento do câncer de mama?

Resposta: O impacto do diagnóstico de um câncer de mama, assim como o enfrentamento do tratamento pré e pós-cirúrgico, insere-se em um contexto de vida dinâmico e singular de cada mulher que o vivencia, onde sua relação com seu corpo encontra-se em equilíbrio/ desequilíbrio contínuos. Este percurso imprime, muitas vezes, uma enorme carga emocional, podendo acarretar sentimentos de inadequação social, familiar, sexual e laborativa. Além disso, o tratamento do câncer de mama e, consequente, a cirurgia de mastectomia reeditam, muitas vezes, vivências traumáticas e potencializam fantasias de fragmentação, mutilação e aniquilamento, podendo provocar sofrimento e desajustes das mais diversas ordens no cotidiano das mulheres, desviando sua atenção de projetos em que estavam naturalmente envolvidas.

O tratamento da mulher com câncer de mama é um processo de múltiplas etapas e inclui cirurgia, radioterapia, tratamento sistêmico (quimioterapia e hormonioterapia) e reabilitação.

Os princípios do tratamento visam a retirada local do tumor, através de uma cirurgia conservadora (quadrantectomia com dissecção axilar) ou cirurgia radical (mastectomia). Os resultados estéticos da quadrantectomia são muito bons, enquanto que a mastectomia implica em comprometimento da silhueta do tórax e da autoimagem da mulher. Este comprometimento pode ser minimizado através da cirurgia de reconstrução mamária, que deve ser realizada sempre que possível.

A vivência do câncer assume muitas vezes um caráter devastador; na realidade não é o corpo ou o psíquico que adoece, mas o indivíduo em sua integralidade e o adoecimento ocupa um lugar diferenciado na vida de cada pessoa, possuindo um significado que vai além da objetividade. O tratamento atinge o mosaico complexo das múltiplas dimensões humanas: física, psíquica, social, cultural, econômica, política, espiritual, nutricional, dentre outras.

O diagnóstico de câncer ainda é visto como sentença de morte e está associado a muita dor e sofrimento. Desta forma, o acompanhamento psicológico assume importância especial, à medida que favorece a identificação de recursos de enfrentamento e reorganização psíquica, valorizando a subjetividade e a potência de cada mulher.

O suporte psicológico oportuniza, através de uma escuta técnica, a expressão e elaboração dos sentimentos relacionados à dor, ao luto, ao medo da vivência de uma doença que carrega o estigma da morte, da mutilação e do rompimento com padrões estéticos dominantes em nossa sociedade através do compromisso da escolha pela vida e do enfrentamento de todos os desdobramentos relacionados à esta escolha.

 

  • Qual impacto dessa doença na sexualidade e vida sexual da mulher?

Resposta: O corpo da mulher possui diversos significados, dentre eles, a mama ocupa lugar de destaque quanto à feminilidade e à nutrição, característica exclusiva da mulher. Todo e qualquer abalo nesta área, poderá, portanto, abalar a integralidade da mulher.

Na modernidade as mamas adquirem um significado especial, principalmente do ponto de vista estético, não se constituindo em apenas mais um segmento do corpo, que possui partes que recebem mais ou menos atenção do que outras.

A análise que cada mulher realiza dos seus seios nos remete ao que chamamos imagem corporal, isto é, o conceito que temos de nosso próprio corpo e que nem sempre corresponde àquele que é visto pelos outros. Esta imagem vai se formando desde os primeiros anos de vida e inclui além dos estímulos visuais, sensações introceptivas, táteis e sinestésicas. Alguns conflitos reais ou imaginários nas relações interpessoais podem estar associados a mudanças nesta imagem, causando prazer ou desprazer.

Em nossa sociedade a cobrança por padrões estéticos convencionais leva algumas mulheres a realizarem procedimentos estéticos de aumento de mama, uma vez que as mesmas desempenham importante papel na dinâmica da sexualidade e vida sexual propriamente dita.

O abalo estético sofrido diante da retirada da mama na ocasião do tratamento de um câncer, ocasiona perda de simetria, produzindo ou aumentando, em algumas mulheres, sentimentos de menos valia, de inadequação social e sexual, porém, outras mudanças estão associadas, como a perda do cabelo na ocasião da quimioterapia, outro importante símbolo de feminilidade. As vivências e as marcas da história de vida de cada uma estão presentes em todo o seu processo de saúde e doença, de forma entrelaçada.

Algumas vezes, a mulher envergonhada utiliza recursos de evitação do parceiro sexual, impedindo com isso o toque em seu corpo, o olhar e julgamento do outro. Este padrão de evitação impede que a mulher tenha vivências afetivas, troca de carinho e energia importantes, dificultando assim a aproximação do outro. Isto não é uma regra; muitas mulheres conseguem, através da terapia e de outros movimentos em busca do equilíbrio e enfrentamento da doença, manter e até mesmo incrementar sua vida sexual, direcionando o foco para a chance de dar um novo sentido a sua vida.

É possível observar que a cirurgia reparadora de mama posterior à mastectomia desempenha um papel importante no resgate da autoestima da mulher acometida por um câncer de mama, porém, para algumas mulheres, o investimento na dimensão psíquica através da terapia se insere neste contexto como um importante aliado.

 

  • O que você mais aprendeu com essas pacientes ao longo de sua experiência?

Resposta: Ao longo de vinte anos de trabalho com mulheres em tratamento de câncer de mama aprendi muito. Utilizando abordagem individual ou de grupo, aprendi com a troca de experiências, com relatos da equipe de saúde e também com a supervisão de estagiários que tanto acrescentam diariamente ao meu trabalho. Entretanto, algo especial me chama a atenção: a importância da empatia, do estabelecimento de vínculo e do investimento que deve ser feito pelo profissional para que essas mulheres não desistam do tratamento. Também, a importância do fortalecimento de laços afetivos familiares e sociais, bem como o potencial de superação e de resiliência contido nas pessoas, principalmente nas mulheres que abraçam a travessia de um caminho difícil, mas que sabem e acreditam que é possível alcançar a cura.

Enfim, cada mulher é única e desta forma também é única e singular a experiência da vida, da saúde e do adoecimento.

 

MASTECTOMIA

A mulher havia perdido um seio. Chorando, ela abraçava o marido, sentindo-se mutilada na sua feminilidade e beleza. Como poderia continuar a ser amada pelo marido?

O marido a aperta carinhosamente contra o peito e lhe diz: “De agora em diante, ao abraçar você, o meu peito estará mais perto do seu coração…”

Rubem Alves

 

A prevenção é muito importante para que o câncer de mama seja diagnosticado o mais a tempo possível, por isso se examine, se cuide, faça os exames e lute com todas nós, juntas podemos vencer o câncer de mama!

E pra terminar queria citar uma mulher que eu admiro muito, pela sua vida e sua obra, ela disse assim: “acima de tudo seja a heroína de sua vida, não a vítima.” Nora Ephron.

Beijos e até logo,

Luiza.

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