A simpática novelinha de época cujo enredo explora ao máximo as venturas e agruras da linda e sorrateira vilã, especialista nos estratagemas de se apossar da fortuna da tia antes do passamento desta, faz com que os olhos dos telespectadores se encham de lágrimas, levando a audiência da emissora a alcançar o pico máximo daquele horário.

Herança é assunto que dá “ibope”, instigando os mais íntimos e adormecidos sentimentos do ser humano, tanto para o bem quanto para o mal.

Independente do grau de escolaridade, do nível de conhecimento ou ignorância da legislação pertinente, do quão simplório ou refinado é o cidadão, é muito pouco provável que alguém desconheça o seu significado: a transmissão do patrimônio de uma pessoa que morreu a seus sucessores legais ou aos indicados pelo de cujus através de testamento.

O que tem se notado, no entanto, é que cada vez mais os filhos têm demonstrado irascível resistência em aceitar que o patrimônio de seus pais pertença apenas a estes de uma forma única e exclusiva, e ainda esperneiam bastante, reivindicando para si o direito de bem dispor daquilo que apenas lhes será devido após o falecimento dos genitores.

Acostumados a uma criação permissiva e lisonjeira, responsável por fazê-los acreditar que são o “máximo”, que podem tudo, que tudo lhes pertences, estes mimados futuros herdeiros viciam-se à boa vida e acostumam-se a receber qualquer coisa de “mão beijada”, sem despender o menor esforço e, sobretudo, sem se interessar em saber como os recursos vêm parar em seu precioso colo.

Não se importam com o fato de os pais se esfalfarem de tanto trabalhar para prover seu conforto, não dão a mínima se eles se privam de desejos ou da realização de sonhos para privilegiar seus caprichos e jamais valorizam o empenho desses pais super protetores que, por sua vez, têm pavor que seus filhotes amados tropecem em dificuldades, que estejam sujeitos a frustrações e seguem atendendo todas as suas solicitações, sanando-as de imediato, sem demora.

E quando essas crianças ultrapassam a fase da adolescência tardia, sendo convidadas a sair de seus palácios despidos dos trajes reais e desprovidos do consolidado aparato de mordomias e benesses para então construir seu próprio reino, enfrentando exércitos inimigos a fim de conquistarem seus próprios territórios, aí…bem, aí, a “coisa” complica.

Alguns conseguem a honrosa façanha de fazer bom uso dos escudos protetores construídos por seus e os empunham contra as adversidades, abrindo caminho pelos tortuosos rumos do destino, exaltando os ensinamentos recebidos e comemorando cada conquista.

Outros, os tais herdeiros de “de cujus” vivos, entretanto, arredios às responsabilidades, enganadores e descompromissados, sentem-se traídos e raivosos quando cobrados, adotando condutas tirânicas e sanguessugas, que variam da rotineira chantagem emocional até os não tão raros casos da mais cruel perversidade contra os genitores, como vez ou outra, cenas impensáveis estampam as manchetes, chocando até o mais insensível dos mortais.

Na tal novelinha de época, tudo leva a crer que o autor destinará para a sobrinha vilã um enorme castigo pelo exercício de sua maldade e, claro, ela aprenderá a lição, a bondosa tia a perdoará e lágrimas de felicidade substituirão as de sofrimento.

Na vida real, é bom mantermos nosso próprio roteiro sob rédeas curtas, segurando-o com delicada firmeza em nossas mãos, para não corrermos o risco de perder a chance de um final feliz no último capítulo.

Téia Camargo

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